R$ 150,00 por uma diária: o problema é maior do que parece

 





A indignação com uma diária de R$ 150,00 não surge apenas pelo valor financeiro, mas pelo contraste entre a responsabilidade da profissão e a remuneração oferecida em algumas oportunidades de trabalho.

É inegável que a odontologia exige anos de graduação, investimentos contínuos em especializações, atualização científica, materiais, equipamentos e uma enorme responsabilidade sobre a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Quando uma vaga oferece uma remuneração que parece incompatível com essa formação, o sentimento de desvalorização é compreensível.

No entanto, a pergunta mais importante talvez não seja "como chegamos a R$ 150,00?", mas "quais fatores permitiram que esse modelo se consolidasse?"

A resposta não é simples. Ela envolve o aumento expressivo do número de cursos de odontologia, a formação de milhares de novos profissionais todos os anos, modelos de negócio baseados em alto volume de atendimentos, excesso de oferta em algumas regiões, além da dificuldade de muitos recém-formados em negociar honorários e construir uma marca própria.

Também é preciso reconhecer que o mercado não é homogêneo. Enquanto algumas clínicas oferecem remunerações incompatíveis com a responsabilidade do cirurgião-dentista, existem profissionais que conseguem construir carreiras sólidas, com honorários mais justos, por meio de posicionamento estratégico, diferenciação, relacionamento com pacientes e gestão eficiente.

Outro ponto que merece reflexão é que aceitar ou recusar uma proposta é uma decisão individual. Para alguns profissionais, uma diária de R$ 150,00 pode representar uma oportunidade temporária para adquirir experiência. Para outros, pode reforçar um ciclo de desvalorização da profissão. Não existe uma resposta única; existe contexto.

Talvez a maior crítica à imagem seja justamente a sua simplicidade diante de um problema complexo. Ela desperta indignação, mas não convida a discutir as causas estruturais nem aponta caminhos para transformar essa realidade.

Valorizar a odontologia não depende apenas de criticar remunerações baixas. Depende de formar profissionais mais preparados para empreender, compreender o mercado, desenvolver competências de gestão, comunicar valor ao paciente e construir diferenciais competitivos.

A verdadeira mudança acontece quando o cirurgião-dentista deixa de competir apenas por preço e passa a ser reconhecido pela qualidade, pela experiência que entrega e pelo valor que gera na vida das pessoas.

A pergunta que fica é: você está apenas reclamando das regras do mercado ou está desenvolvendo estratégias para construir uma carreira que não dependa delas?


Por, Cristiano Trindade.

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